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A Rapariga do Casaco Preto

 

  • Autor: Altokio
  • Categoria: Original
  • Géneros: Drama, Death Fic, Trágedia
  • Idade: Livre
  • Serie: Book With One-Shot's

Sinopse: “A primeira vez que a vi foi quando tinha 5 anos, ela olhava de modo tranquilo com as mãos nos bolsos para o quarto da minha avó, que se encontrava internada no hospital, por estar doente. Olhava para como se estive-se á espera de algo...

Cap.01 - A Rapariga do Casaco Preto

A primeira vez que a vi foi quando tinha 5 anos. Ela tinha cabelo longo, castanho, vestia um casaco preto com uma t-shirt branca por baixo e uns jeans pretos, ligeiramente largos. Usava duas correntes no lado direito das calças e uns ténis pretos com atacadores amarelos, desabotoados, com a bainha das calças sobre a palmilha.

Reparei que ela olhava de forma tranquila, com as mãos nos bolsos, para o quarto da minha avó, que estava internada no hospital por estar gravemente doente. Olhava como se estivesse à espera de algo. Eu estava no corredor com a minha mãe, que falava com uma enfermeira.

– Mamã – disse eu – quem é aquela rapariga de casaco preto? – apontei para ela.

A minha mãe olhou, mas não viu ninguém.

– Quem, Akira?

Nesse momento, o doutor saiu do quarto da minha avó e aproximou-se da minha mãe para falar.

– Akira, querido, vai sentar-te com a enfermeira enquanto falo com o doutor, está bem? – disse, sorrindo para mim.

– Está bem, mamã.

Fui sentar-me como a minha mãe tinha pedido. Olhei novamente para a entrada do quarto da minha avó, e lá estava ela, ainda a olhar. De repente, a rapariga entrou no quarto da minha avó. Levantei-me depressa para ver o que ela iria fazer. A enfermeira assustou-se com a minha ação. Quando espreitei pela janela do quarto, vi a minha avó a dormir sozinha, com uma expressão de profunda tranquilidade no rosto.

– Mamã... – disse, quando ela se aproximava de mim, com o semblante entristecido – porque é que a avó está a sorrir enquanto dorme?

A minha mãe ajoelhou-se ao meu lado.

– Como sabes, Akira, a avó estava muito doente e...
– Mas a avó não vai acordar? – perguntei, olhando para ela.

– Não, meu querido – respondeu, com um sorriso triste, pousando a mão na minha cabeça.

– Mas porquê? – insisti, confuso.

– Porque ela agora foi para um sítio melhor. – Sorriu, desta vez com um pouco mais de paz, olhando para a janela do quarto.

Naquele momento, não entendi completamente, mas senti-me feliz por saber que a minha avó tinha ido para um lugar melhor.

Anos mais tarde, quando fiz 10 anos, os meus pais ofereceram-me um cachorrinho da raça labrador, que estava prestes a ser abatido. Por isso, chamei-o de Luck. Com o tempo, descobrimos que Luck não era totalmente saudável; tinha problemas respiratórios. Apesar disso, os meus pais decidiram ficar com ele, por ser tão carinhoso e simpático com todos.

Quando Luck tinha seis anos, começaram as primeiras crises respiratórias. O veterinário disse-nos que o problema não tinha cura, e desde então passámos a cuidar dele com mais atenção.

Hoje, estava deitado à sombra de uma árvore no jardim, observando Luck a dormir relaxado debaixo da sua árvore favorita. Fui à cozinha buscar um lanche e, quando voltei, lá estava ela novamente — a rapariga de casaco preto, a olhar tranquilamente para Luck.

Aproximei-me, surpreendido.

– És tu... és a mesma rapariga daquela vez...

Ela voltou-se e sorriu.

– És mesmo tu! A rapariga daquele dia! – exclamei.

Ela sorriu mais uma vez e voltou a olhar para Luck. Abaixou-se, passando suavemente a mão pela cabeça dele.

– Descansa, pequeno. Agora está tudo bem.

Levantou-se, colocando as mãos nos bolsos, e continuou a observar Luck. Olhei para ele; adormecera e tinha a mesma expressão de tranquilidade que a minha avó tivera.

– Quem és tu, afinal? – perguntei, intrigado.

Ela olhou para mim e respondeu com serenidade:

– Quando chegar a altura certa, tu saberás.

Fiquei confuso com a resposta. Nesse momento, ouvi a minha mãe a chamar-me.

– Akira, podes vir aqui um momento?
– SIM, JÁ VOU! – respondi. Quando me voltei para Luck, a rapariga já não estava lá. Olhei em volta, mas ela tinha desaparecido.

Mais tarde, nessa noite, quando fui levar Luck à rua, percebi que ele não se tinha movido desde a tarde. Chamei-o, mas ele não reagiu. Foi aí que percebi que Luck tinha morrido. Naquele instante, comecei a entender quem era realmente aquela rapariga.

Os anos passaram. Formei-me em Medicina, conheci a minha mulher, Yui, e juntos tivemos dois filhos, Kojiro e Ruki. Mais tarde, eles deram-me dois adoráveis netos, Akio e Hideo. Tive uma carreira de sucesso e recebi até um prémio de reconhecimento, para orgulho da minha família. Apesar dos momentos difíceis, como a perda dos meus pais, a minha mulher e os meus filhos estiveram sempre ao meu lado.

Agora, aos 89 anos, estou internado no hospital, diagnosticado com cancro no fígado desde os 57. Fiz quimioterapia para prolongar a vida, mas a minha saúde já não é a mesma. Hoje, o dia está radioso, e a minha mulher, filhos e netos vêm visitar-me. No entanto, sinto-me mais cansado do que de costume. Estava a observar o teto, quando, de repente, reparei nela.

– És tu... – murmurei, ao reconhecê-la.

Ela entrou no quarto, aproximando-se. Não tinha envelhecido nem um pouco.

– Vejo que não envelheceste – disse eu, com um leve sorriso.

– Assim parece – respondeu, sorrindo também.

– Talvez porque não envelheces, certo? – perguntei, num tom baixo.

Ela assentiu com o mesmo olhar tranquilo.

– Vejo que já sabes quem eu sou.

Olhei-a nos olhos, devolvendo-lhe o sorriso.

– Já está na minha hora? – perguntei.

– Não, ainda não – respondeu – vou conceder-te um pouco mais de tempo para te despedires da tua família.

– Obrigado – disse, emocionado.

Ela saiu e ficou no corredor, observando-me através do vidro. Quando a minha família chegou, conversámos longamente. Eu, por vezes, olhava para ela, que aguardava pacientemente, como fizera no dia em que a minha avó morreu.

Quando a visita terminou, a rapariga voltou a entrar no quarto.

– Agradeço-te, do fundo do coração – disse-lhe.

Ela sorriu.

– A tua avó também disse o mesmo, sabes? Gosto de dar às pessoas tempo para se despedirem.

– E aquelas que morrem de repente? – perguntei, curioso.

– Nesses casos, não posso fazer nada... fico triste.

– Triste? – perguntei, surpreso.

– Sim, a morte não precisa de ser violenta. Prefiro que seja tranquila.

Assenti, compreendendo. Suspirei e encostei-me à almofada, sentindo o cansaço a aumentar.

– Acho que agora a minha hora está mesmo a chegar...

Ela aproximou-se e pousou a mão suavemente na minha testa, tal como fizera com Luck.

– Não tenhas medo. Apenas descansa... agora está tudo bem.

As minhas pálpebras começaram a pesar, e a voz dela foi ficando cada vez mais distante até que adormeci. Quando voltei a abrir os olhos, vi os meus filhos a falar com o médico. Não percebia o que se passava.

– O que se passa? – perguntei, confuso.

Foi então que me vi deitado na cama, sereno, com a mesma expressão de tranquilidade que a minha avó e Luck tinham tido.

Sorri.

– Está na hora? – perguntou a rapariga.

– Sim, vamos – respondi.

E juntos, eu e a rapariga de casaco preto caminhámos pelo corredor do hospital, em direção à luz que entrava brilhantemente pela porta de saída. 




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