Rhoda abre lentamente os olhos, olhando em volta não reconhecendo o local onde as paredes eram feitas de pano, confundindo-se com paredes robustas. Lembrando-se do que aconteceu, antes de perder a inconsciência, olhou em volta há procura de Selina mas não a encontrou.
No momento em que ia levantar-se, um dos médicos aproximou-se lendo alguns papéis sem dar conta que ela já estava acordada.
- A onde está a Selina? - Sentando-se à beira da cama, com algumas dores na coxa.
- Se estás a perguntar pela rapariga humana, ela encontra-se na ala dos pacientes de risco, mas está fora de perigo por agora. - Abaixando os papéis, olhando para ela sem muito interesse.
- Posso vê-la? - Levantando-se da cama.
- Sim, claro que podes. Mas aconselhava-te a não esforçar a tua perna. - Num tom sério.
- Quanto tempo vou demorar a recuperar até estar de novo boa?
- Hum.. dentro de 3 ou 4 semanas ou até menos, isso dependerá como levares o repouso a sério.
- Compreendo. Obrigada.
Rhoda sai do local deixando o médico sozinho, voltando de novo a ler os papéis atentamente. A ala dos pacientes de risco não ficava muito longe do local onde estava, lá procurou Selina no meio de outros pacientes, onde no fundo da tenda vê alguém com uma silhueta conhecida.
Aproximou-se lentamente um pouco receosa reconhecendo quem era, viu Selina deitada na maca com os olhos fechados, onde outro médico examinava cuidadosamente.
- Ela já não corre perigo. - Olhando pelo ombro. - Ela precisa só descansar. - Indo para o outro lado da cama.
Rhoda avança olhando fixamente o rosto dela. Dormia serenamente, com respirar regular, mas o silêncio entre elas de certa forma incomodava. Pousou a mão dela para sentir o calor da mão de Selina apertando ligeiramente. O médico notou no olhar de Rhoda alguma preocupação.
- Não te preocupes, ela irá acordar, a seu tempo.
- Eu sei que sim. Ela é uma lutadora. - Olhando para o médico.
Nesse momento, Rhoda sentiu a fome a querer manifestar-se. Respirou com calma, e perguntou.
- Existe algum lugar sossegado perto do acampamento?
- Sim existe, um lago onde os enamorados vão ver o pôr-do-sol sem serem incomodados.
- Obrigado pela dica.
Rhoda olhou de novo para Selina antes de sair do posto. Cá fora o sol ia alto e o dia convidava a passear, o som do vento nas folhas das árvores vez a olhar em volta antes de ir à procura do lago. Ao chegar percebeu o porquê que os enamorados iram até lá, o barulho suave da água e a bela paisagem verde misturada com azul do céu era de facto hipnotizante que até ela demorou a focar-se no que vinha fazer ao lago.
Arranjou um lugar para sentar-se, uma vez que a perna direita não podia ser dobrada estendeu-a, e a outra dobrou-a. Fechou os olhos lentamente sentindo a brisa do vento a brincar levemente com o cabelo dela.
Pensou nas várias memórias boas que ela e Selina fizeram ao longo destes cinco anos que passaram, de maneira a trancar de novo a fome no seu quarto. Cinco anos que já passaram, e não arrepende-se em nada da decisão que tomou, faria de novo essa decisão vezes sem conta. Selina mostrou-lhe que o mundo não precisa de ser todo pintado de negro.
No momento em que abriu os olhos soube que estava a ser observada.
- O que queres de mim, esquilo?
O esquilo desce da árvore agilmente aproximando-se de Rhoda.
- Iorveth, quer falar contigo.
- Iorveth? - Voltando-se para ele, confusa.
- Aquele que salvou a vossa vida na floresta no outro dia.
Rhoda lembrou-se do rosto do elfo que perguntou o que elas faziam na floresta dele.
- Ele é quem manda no acampamento? - Levantando-se devagar.
- Sim. Vamos?
- Sim, lida o caminho.
Pelo caminho Rhoda observou que existia bastantes tendas e muitos olhares desconfiados a olharem para ela, mas não fez com que ela deixasse de ser intimidada, porque ela sabia bem o quanto os elfos odiavam os humanos. A tenda de tamanho médio que apresentava-se na frente dela estava rodeada de vários guerreiros esquilos onde um grupo deles ouviam atentamente Iorveth a falar. Pelo tom de voz sério parecia ser algo importante. Assim que viu os dois aproximar-se dispensou o grupo e entrou na tenda.
Dentro da tenda, Rhoda olhou em volta e não tinha muita coisa, apenas o essencial. Uma mesa média de madeira onde estava cheia de papéis e outros documentos onde Iorveth estava encostado de braços cruzados, ainda existia uma pequena lareira com pequenos brazões metidos num recipiente que há muito perdeu a cor, tendo uma pequena mesa de madeira com alguns objectos em cima rodeada com bancos e uma cadeira, e ainda viu um pano de cor vermelho escuro estendido ao comprido pendurado, que parecia ser uma outra entrada para outra divisão.
- Estás dispensado. - Olhando para o esquilo, que saiu da tenda. - Tenho uma missão para ti. - Olhando agora para Rhoda sério. - Mas só daqui a 3 ou 4 semanas é que estás boa, segundo o médico.
- Ou até menos se repousar como deve ser.
- Tu e a tua amiga terão uma tenda para vocês. No entanto, as tuas armas estarão confiscadas, até à missão.
- Como achares melhores..
- Aviso se tu ou a tua amiga tentarem fazer alguma estupidez serão mortas sem hesitação.
- E porque iríamos fazer tal burrice? - Um pouco surpreendida com a observação. - Lá porque somos humanas não quer dizer que sejamos parvas como o resto. Aliás não temos nada a ganhar com isso, só a perder, para além que dei a minha palavra em ajudar no que fosse preciso para pagar a dívida. - Num tom sério.
- Hum… Iremos ver isso.
- Existem monstros nas redondezas?
- Sim. Porque perguntas? - Intrigado com a pergunta dela.
- Para saber se me aventuro fora do acampamento. - Dando uma resposta defensiva, mas notou desconfiança no olhar de Iorveth.
- Qualquer das formas tu e a tua amiga podem andar livremente pelo acampamento, - Voltando-se para a mesa de operações cheia de papéis. - estás dispensada, podes sair.
Rhoda saiu da tenda e sentiu alguém a observa-la pelas costas deixando-a desconfortável, suspirou porque sabia que andar “livremente” pelo acampamento era sobre o olhar atento dos esquilos escondidos nas sombras. Explorou com calma as redondezas do acampamento onde viu vários esquilos a falarem entre si, outros sentados há fogueira a descansar tendo a presença de algumas esquilas onde eles não darão muita importância à presença dela.
Contudo ela quis afastar-se do acampamento sendo calculosa em relação aos monstros que podia encontrar, o caminho que percorreu levou-a a uma velha casa de madeira que há muito o branco já estava desgastado, tendo na parte de trás alguma terra cultivada onde já via-se pequenos rebentos a saírem da terra.
A parte fora da casa tinha alguns objectos pendurados que tilintavam cada vez que o vento agitava-os, aos ouvidos de Rhoda o som era agradável de ouvir-se, trazendo-lhe lembranças de um passado que deixou-lhe saudade. No entanto, a mente dela afastou-a dessas lembranças quando pressentiu que alguém naquela casa estava a morrer de uma forma lenta já algum tempo.
Rhoda avança até à entrada da porta e bate. Uma jovem de cabelos castanhos longos abre a porta e olha para ela um pouco desconfiada.
- Em que posso ajudar? - Com voz um pouco trêmula.
- Eu posso ajudar o teu pai.
- Não estou a perceber o que queres dizer. Com licença. - Começando a fechar a porta.
- Eu sei que o teu pai está em sofrimento. - Pondo a mão na porta parando de a fechar. - Eu posso ajudá-lo.
- Mas como… - Surpreendida.
- Quem era à porta, Erin? - Continuando a olhar para o mesmo sítio.
- Era uma mulher.
- Esta jovem mulher, que se encontra ao pé de mim?
- Sim.
- Prazer. - Acenando para o local errado onde estava Rhoda.
- O meu pai é cego. - Explicando a Rhoda.
- Prazer é meu.
- Por favor, senta-te. - Caminhando para o lado da cama, sentando-se no banco ao pé do pai.
- Eu sei que não estás aqui por acaso, verdade?
- Não, não estou. - Sentando-se.
- Finalmente conhecemo-nos.
- Eu não sou a morte, se é isso que está a pensar. - Num tom calmo.
- Eu sei que não, mas fico contente de mais uma vez poder ajudar.
Rhoda gentilmente pega na mão do velho homem enquanto Erin não conseguia conter as lágrimas de cair pelo rosto abaixo.
- Erin… - Pegando na mão da filha. - lembra-te de agarrar sempre às boas lembranças que fizemos juntos, quando sentires só.
- Pai.... - Com uma voz abafada.
- Mas acima de tudo promete-me que não terás pressa de vir ter comigo. - Apertando a mão dela. - Ainda existem tantas coisas boas para descobrires neste mundo.
- Sim prometo.
- Amarei-te sempre.
- E eu a ti, pai. - Agarrando com força a mão dele.
- Estou pronto. - Deitando-se para trás.
- O que irá sentir ao longo do tempo será apenas sono, nada mais.
Rhoda observa que as pálpebras do velho homem gradualmente começam a ficar pesadas.
- Eu vejo a tua mãe, Erin. Ela está sentada num banco à minha espera. - Fazendo uma breve pausa. - Obrigado.
Assim que acabou de falar os seus olhos fecharam de vez. Rhoda apesar de ser a única a ver esperou que a alma saísse do corpo do velho homem para consumi-la.
- Agradeço muito a tua ajuda. - Aproximando-se dela. - Como posso pagar?
- Não precisas. Eu ajudo sempre que posso, sejam humanos, animais, etc. Ainda tenho uma dívida grande a pagar.
- Hum, percebo. - Um pouco confusa com a última parte que Rhoda disse. - Mas de qualquer forma agradeço de novo.
A jovem acompanhou Rhoda até à porta onde ela notou que a tarde já começava a caminhar para o final. Percorreu o trilho onde observou o céu pintado de tons laranja com alguma atenção enquanto voltava até ao acampamento, indo de novo até ao lago. Lá sentou-se no mesmo lugar da mesma maneira que a primeira vez onde esteve a meditar e sem dúvida o pôr-de sol era maravilhoso.
Apesar do silêncio que inundava o local ela conseguia ouvir vários casais a falar baixinho acompanhado de sorrisos. Sem dar conta estava a pensar qual teria sido a última vez que tinha parado para pensar. Talvez quando tinha uma família, uma vida despreocupada. Mas porquê que Rhoda tinha deixado de parar para pensar? Por causa da saudade, que a corroía sempre que parava para pensar, as lembranças, as memórias são a única coisa que tem de um passado ao qual já fez parte.
A brisa do vento de novo brinca com o cabelo dela onde olhava para o vazio do horizonte, que foi interrompido por um grupo de três esquilos que aproximavam-se de um casal.
- O que andas a fazer? - Com tom irritado de braços cruzados.
O casal levantou-se e Rhoda apercebeu-se que os dois esquilos eram irmãos, devido às feições faciais.
- Desculpa? - Um pouco confuso.
- Não te faças de parvo. Sabes bem o que estou a falar. - Franzindo o sobrolho. - Quando deixas de andar atrás das namoradas dos outros?
- Eu não ando atrás das namoradas de ninguém . Que eu saiba Lierin terminou tudo contigo. - Num tom sério. - Por isso dá meia volta e deixa-nos aproveitar o resto do pôr-de-sol.
- Nem penses. - Empurrando o irmão, fazendo cair no chão.
- Oh!!! É assim que queres resolver as coisas? Por mim é como quiseres, mas já sabemos quem irá sair vitorioso. - Levantando-se do chão.
- PAREM OS DOIS JÁ COM ISSO!!!! - Levantando-se com tom alto a chamar atenção dos irmãos.
Os dois olharam para Rhoda surpreendidos que aproximava-se deles. Ela observou a esquila que parecia estar a gostar do momento tenso entre os irmãos, o que a fez lembrar de algo semelhante no passado onde assistiu à morte e à destruição de vilas e cidades como espectadora. A destruição de dentro para fora seja ela onde for é a pior de todas.
- O que queres, dh'oine? Isto não tem nada haver contigo.
- Tens mesmo a certeza que estás disposto a perder a tua amizade com o teu irmão por causa desta rapariga? - Olhando para a elfa séria.
- O que queres dizer com isso, dh'oine? - Num tom um pouco agressivo.
- Não percam tempo, nas manhas dela. Não vale o esforço.
- O QUÊ?!?!?! - Indignada. - Não ouçam o que está dh'oine diz. - Olhando para os irmãos.
- Então não terás problema, em falar de um tal Ualiar a eles.
Os dois irmãos olharam surpreendidos com uma ligeira irritação para Lierin que mostrava-se um pouco embaraçada sem saber o que fazer ou dizer.
- Ouçam, - Olhando para os irmãos. - enquanto os amigos, namoradas, maridos, mulheres eles vêm mas também vão. - Fazendo uma pausa. -
Os irmãos e irmãs são para sempre. Por isso não cometam este erro parvo. - Os dois olharam um para o outro durante algum tempo antes de pedir desculpa um ao outro.
- Isto não vai ficar assim, ouviste, dh'oine? - Indo-se embora do local chateada.
- Porque ajudaste-nos?
- Lá porque vimos todos do mesmo saco não quer dizer que toda a fruta seja podre, verdade? - Viu alguma surpresa nos olhos dos irmãos. - Eu sei que é difícil distinguir, mas tem que se arriscar de vez em quando, não?
- Acho que tens uma certa razão, no que dizes. - Dando um pequeno sorriso. - Obrigada.
Os irmãos e o grupo que acompanhava um deles saíram do local deixando Rhoda sozinha, onde olhares curiosos observavam ela, mas rapidamente retomaram ao que estavam a fazer anteriormente. Antes de Rhoda sentar-se de novo, pelo canto do olho viu um esquilo aproximar-se dela. Olhou para ele suspirando seguindo-o até à tenda de Iorveth. Lá dentro viu Lierin junto dele, que estava de braços cruzados.
- Esta dh'oine, humilhou-me à frente dos irmãos Alred! - Num tom irritado.
- Humilhei-te? Foste tu própria que te humilhaste. - Num tom calmo. - Sempre que achas que a tua aventura torna-se aborrecida, passas a outra...
- Tu não tens provas disso. - Um pouco desconfortável.
- Não preciso de provas, a minha audição é boa o suficiente principalmente naquele lago onde o silêncio é o som ambiente. - Lierin nada disse e olhou para Iorveth. - Se queres assim tanto aventuras emocionantes porque não ajudas mais aqui no acampamento? Sempre é mais útil do que andares aí a fazer figura de parva.
- JÁ CHEGA!!!! - Interrompendo Rhoda e Lierin que ia falar. - O que leva-te a dizeres isso? - Olhando para Rhoda sério.
- Não estou a perceber. Ela é quem está proceder mal aqui, não sou eu. - Surpreendida com Iorveth. - Ela é o tipo de mulher que é capaz de espalhar a destruição de dentro para fora, eu já vi acontecer anteriormente. São silenciosas e mortíferas. Se os teus guerreiros esquilos ficarem divididos por causa do que ela está a fazer, é o fim do teu bando.
- Eu nunca faria isso!!!! A Scoia'tael acolheram-me quando não tinha mais ninguém.
- Não farias? - Olhando para Lierin com um pequeno sorriso. - Abre os olhos Lierin!!!! E vê à tua volta o que tens feito até agora. Achas que tens ajudado em alguma coisa? Pelo contrário.
- Na altura em que salvei-te disseste-me que querias tornar-te mais forte e que os teus ideais eram os mesmo que a Scoia'tael. - Olhando para Lierin sério. - Ao que parece os rumores que me têm chegado aos ouvidos começo a ver que são verdadeiros. - Abaixando o olhar. - Já algum tempo que tenho notado que os teus ideais começaram a deixar de ser os mesmo que a Scoia'tael.
Rhoda vê a raiva no olhar de Lierin por detrás das lágrimas que escorriam-lhe pelo rosto abaixo.
- Isto não vai ficar assim, dh'oine. - Com ódio na voz.
Sem Rhoda aperceber-se, Lierin saca de uma pequena adega onde num movimento rápido faz um golpe na coxa aleijada, deitando-a ao chão, gemendo de dor. A rápida agilidade de Lierin faz com que saia da tenda a grande velocidade, apanhando Iorveth de surpresa onde informa aos esquilos da fuga e pede para chamar um médico rapidamente.
De seguida volta-se para Rhoda onde ela tentava estancare o sangue mas sem muito sucesso. Abaixou-se examinando a coxa dela e viu que a mancha de sangue ficava cada vez maior.
- Não costumo me dar muito bem com mulheres. - Um pouco ofegante, mas mostrando-se calma com a situação.
- Ela fez forte e feio. Temos de parar essa hemorragia o quanto antes.
Iorveth olhou para o brasão que estava dentro do recipiente pensativo, e sem pensar duas vezes foi buscá-lo trazendo algum álcool e um pedaço de tecido.
- Bebe disto. - Dando-lhe uma boa porção de álcool.
Rhoda bebe toda a porção, onde Iorveth desinfecta o brasão que encontrava-se ao pé da fogueira a aquecer, dando a Rhoda um pedaço de tecido para morder.
No entanto Iorveth, rasga o tecido à volta da coxa dela expondo a ferida onde deita o resto do álcool para desinfectar. Rhoda geme abafadamente, onde num rápido movimento Iorveth traz o brasão quente e sela a ferida fazendo com que Rhoda mais uma vez gemesse mas já não com tanta intensidade ficando entre consciente e inconsciente.
O médico entra a correr dentro da tenda e informa que é necessário levá-la ao posto para ser analisada. Iorveth vai buscar algumas mantas e envolve Rhoda que solta pequenos gemidos quando pegou ao colo, levando-a até ao posto.
Rhoda olhou ligeiramente para o rosto dele, o calor que sentia era familiar, ela já tinha sentido de uma outra vez, onde tinha torcido o tornozelo e o marido dela teve de levá-la ao colo até a casa numa época antes serem pais.
- Obrigada, Iorveth. - Num tom baixo.
Sem conseguir perceber se no rosto dele formava um ligeiro sorriso ou não, fechou os olhos lentamente mergulhado num sono profundo.


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