Rhoda acorda lentamente, abrindo os olhos ainda ajustarem-se à claridade do quarto. Reconhecendo o tecto do posto médico, onde ao lado dela vê Selina sentada com largo sorriso o que a deixa um pouco confusa.
- Selina!!! - Levantando-se para cima.
- Calma Rhoda. - Levantando-se do banco agarrando os ombros dela.
- Mas como?
- Muito simples, tiveste praticamente a dormir duas semanas.
- Duas semanas?!
- Sim. No dia seguinte quando acordei, tinhas dado entrada no posto. O que aconteceu?
- Foi Lierin, uma elfa com manias.
- Devias ter mais cuidado. - Um pouco preocupada.
- Sim eu sei, mas já sabes como eu sou. - Suspirando. - Como estás?
- Tenho andado bem e ajudado quem precisa no acampamento.
- Típico. - Sorrindo-se. - Assim que tivesses boa em dar os primeiros passos, lá foste tu.
- Já sabes como é. - Sorrindo-se também.
Em seguida aproximou-se delas um médico, lendo alguns papéis mas sem muita atenção.
- Oh! Vejo que já arranjaste companhia, Selina.
- Sim é verdade.
- Vamos ver como está a tua coxa? - Olhando para Rhoda, com um pequeno sorriso.
- Sim claro. - Sem por alguma objecção. O toque do médico era calculista e cuidadoso.
- Tiveste muita sorte em Iorveth ter reagido rapidamente. Porque senão terias perdido a perna.
- Sim, lembro-me vagamente do que aconteceu.
- Pelo que estou a ver não há necessidade de continuares aqui no posto. Terás alta ainda hoje, mas sem grandes aventuras, ok?
- Ok.
- Não te preocupes, eu tomo conta dela. - Sorrindo para o médico.
- Eu sei que sim. Tenho que ir, as melhoras. - Saindo do local.
- Obrigada. Hum… o que ele quis dizer com aquilo?
- Foi eu quem tratei de ti em tudo que era necessário enquanto estavas a dormir.
Rhoda olhou Selina surpreendida antes de olhar para as suas mãos pensativa.
- Por quê essa cara de surpreendida? - Pegando nas mãos de Rhoda. - Achas que não iria cuidar de ti?
Rhoda dá um sorriso mostrando a alegria nas palavras de Selina, que a abraçou fortemente, antes de ajudá-la a sair da cama. Cá fora o céu apresentava algumas nuvens, mas deixava o sol iluminar o caminho em que as duas percorreram até à tenda delas, que não era muito grande, mas era suficiente. Antes de entrar, Rhoda sentiu que os esquilos tinham deixado de observá-las por algum motivo.
- Selina! Gostaria de te levar a um lugar que irás adorar.
- Ok, mas antes, tenho que dizer-te uma coisa.
- O quê?
- Iorveth falou comigo sobre a missão que irás fazer, e quis saber no que eras melhor.
- Contaste-lhe acerca do que sou? - Preocupada.
- Não, achas. Apenas pedi-lhe para ajudar-te a melhorar no combate corpo a corpo. - Viu Rhoda pensativa. - Daqui algumas semanas vais começar os treinos e farás parte desse grupo.
- Ok. - Surpreendida. - Eu irei. - Sorridente.
- Agora. Onde fica esse lugar? - Avançando para a saída da tenda.
As duas saíram, em passo calmo aproveitando a pequena brisa que fazia. Ao chegarem, Selina ficou de tal maneira hipnotizada a observar o horizonte que demorou alguns minutos a desviar olhar para Rhoda.
- Estranho… - Olhando em volta. - Hoje parece que não está ninguém aqui.
- Não faz mal, mais fica para nós. - Aproximando-se da beira da água. - A água aqui é tão limpa que até consigo ver o meu reflexo. Anda cá Rhoda.
Rhoda aproxima-se da beira da água olhando o seu reflexo e vê que nada tinha mudado muito com os anos. Ficando com uma expressão séria e pensativa, o que fez Selina reparar.
- O que tens na tua testa? - Aproximando-se lentamente de Rhoda e com rápido movimento molha a cara dela rindo-se.
- Oh!!!! Já estou a perceber. - Limpando a cara molhada. - Se queres guerra irás ter. - Aproximando-se de um tronco pondo o casaco e a camisa, ficando de tronco nu mostrando o porte atlético, juntamente com as suas cicatrizes e os seios envoltos em ligaduras.
- Espera, espera. - Aproximando-se também do tronco onde estava a roupa de Rhoda pondo a dela ficando apenas com uma roupa leve vestida, sem ficar com o tronco nu. - Não sei não, como não és muito boa em corpo a corpo. - Num tom desafiador.
As duas entraram na água pondo umas das mãos na água e ao mesmo tempo fizeram contagem decrescente. Selina num movimento rápido esquivou-se do ataque de Rhoda molhando o braço dela, sem aperceber-se que Selina aproximou-se e molhou de novo Rhoda. E mais uma vez e outra e outra.
Rhoda começou a sentir-se frustrada por não conseguir molhar Selina e num acto de desespero começou a mandar água por todos os lados acertando finalmente em Selina.
- EI!!! Isso não vale!!!! Mas ok. - Imitando Rhoda, o que faz com que ela fica-se mais agressiva acabando por molhar Rhoda toda.
- Ok, ok. Desisto, ganhaste. - Rindo-se.
- SIM!!!!! - Festejando sorridentemente.
As duas saem da água voltando para a margem, onde Rhoda deita-se no chão apoiando a nuca com as mãos enquanto Selina estava sentada no chão ao lado dela.
- Já tinha saudades disto.
- De facto tens razão. Mas sabes que tenho andado a pensar e acho que um dia darias uma óptima mãe.
- Sim talvez. Falta agora arranjar um marido. E tu serias a tia. - Olhando para Rhoda sorridente.
Nisto Rhoda levanta-se do chão ficando sentada a olhar com ar sério para o horizonte que indicava que a tarde ia a meio do dia.
- O que se passa?
- Sabes qual é o meu maior medo? - Fazendo uma curta pausa. - É ficar de novo sozinha. - Olhando para Selina séria. - Saber que não posso fazer nada para impedir a tua morte e isso deixa-me um pouco triste.
- Acho que estás a dar muita importância a algo que ainda está longe de acontecer. - Agarrando as mãos dela. - Devias desfrutar o agora como este momento que estamos a ter.
- Sim, acho que tens razão. - Levatando-se do chão puxando Selina consigo.
Nesse momento, Rhoda sentiu um desconforto atrás da nuca que a fez voltar-se para um conjunto de árvores, à procura de alguma coisa escondida entre elas, mas não conseguiu ver nada.
- O que se passa? - Olhando confusa.
- Não é nada. Pareceu-me ter visto alguma coisa, mas deve ter sido a minha imaginação. - Soltando as mãos de Selina.
As duas deram por encerrada a diversão onde vestiram-se e caminharam com calma de volta para à tenda, até que ao longe viram uma pequena multidão que chamou a atenção delas.
Aproximaram-se, abrindo passagem entre as várias pessoas. Rhoda não quis acreditar no que os seus olhos mostravam. Erin estava amarrada a uma árvore apresentando sinais de agressividade onde gemia num tom baixo.
Ao tentar aproximar-se dela, um esquilo advertiu-a para não o fazer que ela era capaz de tentar morder. Mas mesmo assim aproximou-se dela abaixando-se com uma margem de segurança observando atentamente. Os vergões negros que apresentava no corpo Rhoda reconhecia-os, estalou os dedos para chamar a atenção de Erin e a reação que teve confirmou o que ela suspeitava, Erin tinha sido zumbificada.
Atrás de Rhoda, Selina aproximava-se ficando aterrorizada com o que via.
- O que se passou? - Olhando para o esquilo séria.
- Quando o meu grupo foi até à casa de Erin para verificar se ela precisava de alguma coisa, reparamos que a porta da entrada estava semi aberta. O que não é hábito, por isso esperamos alguns minutos e lá de dentro saíram alguns homens vestidos de guardas e um homem de negro.
- Homem de negro? - Levando-se rapidamente com olhar sério. - Há quanto tempo foi isso?
- Coisa de 30 minutos atrás.
- Selina, - Voltando-se para ela. - vou ter que me ausentar por uns minutos.
- Ok. Eu fico aqui à tua espera.
Rhoda desapareceu por entre a multidão, saindo do acampamento percorrendo o caminho até à casa de Erin, esperou alguns segundos antes de aproximar-se da entrada da porta. Ao abrir a porta principal o cenário era de horror. Erin tinha sido abusada e violentada na sua própria casa.
Em cima da mesa viu um boneco de trapos de cor negra, ao aproximar a mão sentiu uma forte presença, e pensou que foi aqui que o homem de negro aprisionou a alma de Erin, não era a primeira vez que via estes bonecos. Fechou o punho com raiva por não ter conseguido evitar que Erin caísse nas mãos dele.
- Por quanto tempo irás ficar à porta? - Pegando no boneco de trapos sorrateiramente.
- Pelo que estou a ver, sabes bem o que se passou aqui. - Entrando dentro de casa.
- Nada de mais - Voltando-se para Iorveth. - típico assalto. - Avançando para a porta de entrada.
- Então porque levas esse boneco de trapos contigo? - Agarrando-lhe o braço dela parando-a.
- Eu preciso dele.
- Eu não gosto de mentiras muito menos daquelas que são evidentes. - Num tom sério. - Vocês dh'oine têm sempre a mania de que tudo tem de ser como vocês querem.
- E porque será que vocês elfos têm a mania de pôr tudo no mesmo saco? - Olhando nos olhos dele. - Que eu saiba o nosso acordo foi que eu fizesse missões para ti e não de dar-te satisfações do que faço ou deixo de fazer.
- Quando alguma coisa acontece e a Scoia'tael está envolvida é suposto dares satisfações. A jovem que morava aqui é quem nos fornece plantas medicinais. - Soltando o braço de Rhoda. - Começo a pensar que talvez foi um erro ter salvo a ti e à tua amiga. - Cruzando os braços.
Um breve silêncio fez-se entre Rhoda e Iorveth, onde ela pensou na Selina e viu os esquilos aproximarem-se dela formando um pequeno círculo à volta .
- Eu contarei tudo o que quiseres saber, mas agora preciso de ir o mais rápido para o acampamento.
Viu alguma hesitação no rosto dele durante alguns segundos, mas acabou por concordar.
- Se tentares alguma….
- Sim, já sei, matas-me em três tempos. És sempre assim tão glamoroso com toda a gente?
- Hum… - Mostrando um ligeiro sorriso.
Iorveth, Rhoda e os restantes esquilos quando chegaram ao acampamento, ela pede a todos para se afastarem mantendo uma boa distância advertindo o que acontecer para não aproximarem-se.
Rhoda aproxima-se de Erin pegando no boneco de trapos, mostrando-lhe o que parecia reconhecer.
- Não te preocupes, eu irei ajudar-te.
A mão que estava vazia começa a ganhar tonalidade verde, formando uma chama verde, onde com a outra aproxima o boneco à chama, o que fez a jovem gema alto ao ponto de gritar de dor, um dos médicos ainda quis ajudar Erin mas Selina impediu de avançar.
Num rápido movimento com a mão em chamas retira com algum custo a alma de Erin. Assim que saio do boneco, o boneco desfez-se em pedaços.
Erin parou de gritar e os vergões negros começavam a desaparecer gradualmente, olhando confusa para Rhoda.
- Está tudo bem agora. - Aproximando-se dela com a alma na mão. - Já estás a salvo. - Introduzindo a alma no corpo.
- Obri.... - Perdendo a consciência, antes de conseguir acabar a frase.
Rhoda solta Erin pondo-a deitada no chão, olhou para multidão que olhava surpreendida, sem muito bem saberem o que acabaram de ver. Viu que Iorveth era o único que mantinha uma postura neutra. Selina aproximou-se de Erin e examinou-a com cuidado.
- Depressa, temos de levá-la ao posto. - Falando para os outros médicos que ainda estavam sobre o efeito surpresa. - Do que estão há espera?
Rhoda viu Selina e os restantes médicos a partir do local, onde a multidão começou a dissipar gradualmente.
- Obrigado por teres confiado em mim - Aproximando-se de Iorveth. - Agora penso que é a minha vez. - Olhando nos olhos.
- Amanhã falaremos. - Num tom calmo. - Assim que acordares vem ter à minha tenda. Hoje foi um dia longo.
- Posso trazer Selina comigo?
- Tu é que sabes.
- Ok.
Rhoda viu Iorveth afastar-se dela com passo calmo até a tenda dele, ficando pensativa de como iria começar amanhã a conversa. No caminho até ao posto viu Selina a falar com uns dos médicos e aproximou-se.
- Erin, vai ficar boa, apesar do que aconteceu-lhe. - Olhando para Rhoda um pouco triste.
- É bom ouvir isso. - Com um pequeno sorriso. - Selina... eu amanhã vou falar com Iorveth e queria que viesses comigo. Há algumas coisas que quero contar-te sobre o meu passado.
- Claro que irei. Regressamos juntas à tenda?
- Sim, vamos.


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