Os primeiros raios de sol já começavam a pintar o céu com tom de azul claro onde Rhoda já estava de pé ansiosa pelo o encontro, enquanto Selina continuava a dormir tranquilamente. Saiu da tenda com cuidado para não fazer barulho. Cá fora o acampamento estava banhado pelo silêncio onde chilrear dos pássaros e os passos dos esquilos que fizeram noite quebrava espaçadamente o silêncio. A brisa da manhã era agradável e gradualmente Rhoda viu o acampamento a ganhar vida e som.
Sem aperceber-se, Selina saiu da tenda, dando uma palmadinha de leve no ombro, dizendo que estava pronta para irem. As duas caminharam calmamente até à tenda do Iorveth, onde entraram e viram ele a discutir algumas táticas com um grupo de elfos mais experientes de como seria melhor proceder.
Iorveth olhou para as duas e dispensou o grupo dizendo que mais tarde voltariam a discutir de novo. Selina sentou num dos bancos que estava à mão porque sabia que iria demorar.
- Por onde queres que eu comece?
- Pelo início, não? - Encostando-se à mesa de operações cheia de papéis de braços cruzados.
- Ok. - Um pouco nervosa. - Pelo que soube dos meus pais eu nasci com uma maldição. Eu sou aquilo a que chamam de um Souleater. - Vendo a atenção focada de Iorveth nela. - Pelo que me lembro na altura, a minha primeira ocorrência foi quando ainda era uma criança. Não me lembro bem ao pormenor o que aconteceu, mas sei que foi por causa que outra criança aborreceu-me e basicamente matei-a inconscientemente. Isto foi gatilho para as outras pessoas afastarem-se da minha família forçando-nos a mudar para outro sítio, para começar de novo. - Fazendo uma breve pausa. - A minha adolescência também não foi fácil. A pressão que os meus pais ponham sobre mim para ser uma jovem normal era imensa. Nessa altura já sabia minimamente dominar o meu poder mas a fome era sempre insaciável.
- Fome insaciável? O que queres dizer com isso?
- Fome de almas. De seres vivos. - Olhando para o chão. - Muitas vezes afastava-me das pessoas dizendo que estava mal disposta para conseguir controlar-me. Até que um dia um grupo de rapazes e raparigas meteram-se comigo, onde agrediram-me com violência, eu ainda disse a eles para pararem e deixarem-me ir mas não quiseram saber. - Olhando para Iorveth séria. - Era eu ou eles a saírem vivos daquela situação. Não tive escolha a não ser matá-los a todos, onde consumi as almas de cada um deles satisfazendo a fome que tinha.
- Não te censuro pela escolha que fizeste. Apenas estavas a lutar pela tua sobrevivência, nada mais. - Vendo alguma surpresa no olhar de Rhoda.
- Sim, mas os meus pais nesse dia souberam o que aconteceu, e talvez para minha sorte ou azar na altura existia um assassino à solta que queimava as suas vítimas até tornarem-se cinzas. Eu vi nos olhares dos meus pais o quanto estavam preocupados com a segurança deles. - Suspirando. - Eu expliquei-lhes como tudo se tinha passado mas não quiseram saber. Preferiram optar pelo caminho mais fácil. - Fechando o punho com força. - Não me recordo bem mas devem ter posto alguma coisa na comida porque quando acordei estava num pântano. Não tinha nada comigo, apenas a roupa que trazia comigo.
- A cruel verdade dos dh'oines. - Dando um pequeno riso.
- Não soube quanto tempo passou, mas talvez umas semanas que andei a vaguear pelo pântano com a fome a começar a despertar, tornando-se a cada dia que passa mais insaciável. Mas foi nessa altura que descobri que não precisava de me alimentar de uma alma “saudável”. - Fazendo uma pausa. - Encontrei um animal de porte grande que estava ferido com alguma gravidade e vi que estava em grande sofrimento. - Mostrando uma ligeira tristeza no olhar. - Aproximei-me dele e toquei-lhe na cabeça, vi no olhar dele o quanto suplicava para que parasse a dor. Acariciei a cabeça dele dizendo que tudo ia ficar bem, que não precisava de ter medo, que apenas tinha de fechar os olhos. - Numa voz meiga. - Vi ele a fechar os olhos lentamente, mostrando uma certa tranquilidade no focinho, onde a alma dele sai do corpo e eu consumia.
Rhoda reparou que Selina ficou um pouco emocional, apesar de não ser a primeira vez que ouve este acontecimento.
- Sem dar conta, um rapaz aproximou-se de mim fascinado. - Dando um pequeno sorriso, ao qual Iorveth reparou. - Ele apresentou-se a mim com um largo sorriso, dando-me o nome dele, Joshua. Enquanto o pai dele estava um pouco inseguro em relação a mim, perguntando onde estava a minha família. Eu respondi-lhe que tinham-me abandonado. Joshua sugeriu que eu fosse com eles, o que me surpreendeu mas não quis arriscar, disse a verdade nua e crua o que eu era. Mas a simples frase que ele disse a mim ainda recordo como se fosse ontem, “E o que tem seres o que és? A mim não me incomoda de tudo. Aliás, na nossa zona o que não falta são anúncios de monstros para caçar.” - Fazendo uma pausa. - E a partir desse momento comecei uma nova etapa da minha vida com esta nova família. Joshua e eu de amigos, tornamo-nos íntimos e por sua vez casamo-nos e ao qual tivemos um filho. Nunca houve uma vez que ele tratasse-me de diferente por causa da minha maldição. Sem dúvida que foram os melhores anos da minha vida. Até os humanos descobrirem o que era. - Fechando de novo o punho com força. - Quando regressava de uma missão vi fumo vindo da direcção da minha casa. Vi Joshua e o meu filho enforcados na árvore que tínhamos ao pé da nossa casa como dois animais. A raiva que senti na altura cegou-me de tal maneira que cometi um grave erro que quase levou-me a vida. Ataquei o vasto grupo de humanos e o resultado foi um corte grave desde aqui, até aqui. - Apontando do ombro descendo até à coxa.
- Como sobreviveste? Tecnicamente, pelo que dizes devias estar morta.
- Eu tive de consumir as almas do meu marido e do meu filho para conseguir ganhar alguma força. Mas… - Olhando para a Selina com olhar baixo. - não me orgulho do que fiz para sobreviver. Nos arredores da minha casa existia um pântano que era conhecido pelo nome de “Cânticos dos Inocentes”. - Suspirando. - Era o local onde jovens mulheres, mulheres ou até mesmo pais abandonavam os seus recém nascidos deixado-os há sua mercês. - Selina pôs a mão na boca chocada, depois de adivinhar o que Rhoda iria dizer. - Como disse não estou orgulhosa do que fiz, mas uma vez abandonados a morte deles é lenta. Eu queria salvá-lo mas não daquela maneira. - Fazendo uma curta pausa. - Após eu consumir a alma dele, vi o corpo do pequeno a transformar-se em cinza, e o meu corpo a regenerar-se lentamente. Nesse momento deixei o meu lado negro sair para fora tornando-me no monstro que as pessoas temiam. Não importava qual a raça, sexo, estatuto, matava a todos. Devem ter passado talvez mais de 100 anos desde da morte do meu marido e do meu filho, tornando-me nómada, onde vi muitas coisas acontecer ao longo dos anos como espectadora.
- Disseste que passou mais de 100 anos? - Um pouco confuso. - Então porque aparentas ter 30 anos? És alguma espécie de vampiro?
- Não, nem por isso. Se me ferirem gravemente eu morro como outro ser vivo. Ou então se der a minha alma a alguém. - Olhando para o Iorveth. - Pelo o que li todas as pessoas que me conhecerem perderão a memória de mim, ficando apenas com uma leve impressão de que algo está a faltar na vida delas. - Selina mostrou surpresa no rosto dela, mas nada disse. - Mas de resto tenho uma longevidade grande. Talvez mais do que os elfos.
- Percebo.
- Durante o meu período negro eu conheci outro souleater. Ao contrário de mim ele é puro, consegue assumir formas, seja de humano, anão, elfo ou de animais, mas não passa de um demónio sempre com uma fome insaciável. Na altura ele apresentou-se a mim como um elfo de estatura média, cabelo curto de cor de prata, chamado Ilthuryn. No longo período que passamos juntos, eu sem dar conta ele criou um estranho afecto por mim. Nunca percebi bem se era alguma emoção ou não, mas um demónio com sentimentos? Improvável. - Encolhendo os ombros. - Infelizmente ele nunca aceitou bem a nossa separação, após eu querer seguir o meu próprio caminho. Ele na altura ameaçou-me dizendo que iria atrás de mim e que eu seria dele a bem ou a mal. A batalha que tivemos, eu saí vitoriosa deixando ele ferido gravemente. E pensei que nunca mais o iria ver, até ontem. - Olhando séria para Iorveth. - O que aconteceu a Erin tem mão do Ilthuryn e tenho a certeza absoluta que foi ele quem o esquilo deve ter visto a sair da casa dela.
- Devo preocupar-me?
- Normalmente ele não ataca se não for provocado. Ele é do tipo paciente, gosta de observar os pequenos pormenores antes de agir. Todo o que aconteceu ontem ele já devia ter planeado há algum tempo, apenas esperou pelo momento certo.
- Então não deve ser muito difícil de o matar.
- Aí é que te enganas, Iorveth. Matar um souleater não é propriamente uma tarefa para mortais. Podes até ter o guerreiro ou grupo mais habilidoso que isso não irá mudar em nada. Só eu ou alguém que tenha habilidades acima do normal é que pode fazer frente.
- Hum… - Ficando pensativo. - O melhor a fazer neste caso é advertir a toda a gente para não arriscar as suas vidas se o encontrarem.
- Sim. - Pensativa. - Cometi o grave erro de o não ter morto quando tive oportunidade. - Olhando para o chão séria. - Não irei deixar escapar a oportunidade se surgir, nisso podes ter a certeza. - Olhando confiante para Iorveth. - No entanto vou a segurar-me que mais ninguém fica em perigo por causa da escolha que fiz. É um fardo que tenho que carregar em mim.
Rhoda reparou que Iorveth olhava de forma mais suave, já não tão carregado como fazia ao início quando ela iniciou a conversa.
- Após a nossa separação tive a vaguear aqui e acolá, mas numa noite os nossos caminhos cruzaram-se. - Olhando para Selina, com sorriso. - Eu salvei-a de um grupo de rapazes que queriam abusar dela. Ela conheceu a minha outra forma, segundo o que ela disse-me eu fico com os olhos brilhantes com um tom esverdeado, onde tenho uma foice como arma que faz parte de mim. Dependendo da fome que deixo controlar-me, todo à minha volta pode ser ou não comida, seja amigo ou inimigo é indiferente. É por isso que necessito meditar quando a fome é persistente de maneira a acalmá-la. Selina ensinou-me como fazer, mas também mostrou-me a ver outra vez que o mundo não precisa ser sempre negro. - Olhando para ela com um sorriso. - Desde esse encontro eu e ela nunca mais separamo-nos onde vivemos vários anos nos arredores de Flotsam, até nós encontramo-nos. - Olhando para Iorveth.
- Bem. - Levantando-se do banco. - Já que estamos numa de falar sobre o passado, deixa-me contar a minha história.
Rhoda sentou-se no banco que dantes estava Selina e Iorveth num gesto suave com a mão pede para prosseguir.
- Apesar da minha aparência, eu tenho sangue de elfo nas minhas veias. A minha mãe elfa casou-se com o meu pai humano que nunca o conheci por ter morrido na guerra quando ainda era um bebé.
- És uma quadroon. - Interessante.
- Sim. A minha mãe desde que me lembro sempre foi dotada para medicina. Ela ensinou-me o básico e até algumas receitas mais complicadas. Costumava dizer que “Conhecimento é poder” e o que é utilizado na medicina poderia abrir muitas portas, mesmo sendo uma quadroon. Ao início não percebi muito bem o que ela queria dizer, mas não tardou muito em perceber isso, eu sabia que a minha mãe escondia a tristeza e a saudade que tinha do meu pai de mim. - Juntando as mãos dando um leve suspiro. - O que veio alterar as nossas vidas foi uma simples palavra “Necromancia”. Acusaram a minha mãe de ser praticante e de utilizar magia negra quando ela utilizou uma poção para acordar uma criança que estava supostamente morta. Apesar de a minha mãe explicar o que aconteceu às pessoas, não adiantou muito. Essas mesmas pessoas que a minha mãe tratou quando precisaram, foram as mesmas que ataram as nossas mãos e pés.
- Malditos, dh'oines. - Ficando sério.
- Tivemos de abandonar a nossa casa, a mesma que eu e Rhoda moramos há vários anos, por não termos meios para sustentá-la. Na cidade vizinha começamos a nossa nova vida mas sem grande êxito por causa da fama da minha mãe que a perseguia. Sentimos na pele a discriminação e o racismo, mas mesmo assim a minha mãe continuava ajudar aqueles que a discriminavam e a maltratavam-na. - Fazendo uma breve pausa. - Houve uma ocasião que perguntei porque ajudava eles e a minha mãe em poucas frases disse, “sabes que onde existe escuridão também existe luz, mesmo sendo pequena não podemos desistir dela”. Na altura não percebi o que ela quis dizer, então ela mostrou-me, vi ela a tratar uma criança que tinha problemas de pele. Um simple obrigado saiu da boca da criança que correu para junto da mãe dele onde a mãe mostrou gratidão à minha mãe que disse-me, “Como vês as pequenas luz podem iluminar outras dar-lhes esperança mesmo que seja só um pequeno fio. Filha! O ódio, a raiva, todos esses sentimentos negativos não levam a nada, apenas fazem ficar-te mais vazia como aqueles que nos discriminam e maltratam-nos.”
Rhoda observou Selina que mostrava um pequeno sorriso. Ela sabia o quanto Selina tinha um enorme orgulho na mãe dela. E quando falava dela não conseguia esconder de todo esse orgulho. Iorveth aos olhos de Rhoda parecia que tinha ainda mais suavizado a sua expressão, após ouvir Selina.
- Foi desde esse dia que decidi seguir as pegadas da minha mãe e ajudá-la no que fosse necessário independentemente a quem fosse. Pouco a pouco a fama dela começou a ganhar pontos positivos. Mas houve um dia que vi a minha mãe a falar com um homem e pela expressão da face dela a conversa não estava a ir da melhor maneira. Nessa noite enquanto jantávamos ela contou-me que tinha de se casar com o homem que tinha falado, ou ele acabava com o que nós tinha construído até agora. - Fechando o punho. - Ela acabou por aceitar porque queria ver-me segura. Desde do momento que entramos por aquela porta daquela casa as nossas vidas tornaram-se num inferno. Quase todos os dias a minha mãe era agredida por aquele estupor, o meu meio irmão ao que parecia tinha um fetiche por mim, apesar de saber que ele odiava tudo o que tinha haver com elfos.
- Isso não é vida para ninguém. - Abanando a cabeça.
- Sim, concordo contigo, Iorveth. - Fazendo uma breve pausa. - Apercebi-me mais tarde de que o meu padrasto só se casou com a minha mãe por causa da sua sabedoria em medicina, ela trabalhava dia e noite para fazer poções, para aquele estupor vender e vender. Num dia em que a minha mãe estava adoentada, ela desfaleceu por momentos e o estupor em vez de ajudá-la ainda agrediu-a por ter partido algumas poções para a venda do dia seguinte. Dessa vez eu intervi mas fui agredida na cara com violência. A minha mãe ao ver-me a cair no chão com a mão na face, a levantou-se dizendo numa voz séria que o acordo que tinham tinha acabado e que íamos embora daquela casa o quanto antes. Num acesso de fúria o estupor agarra a minha mãe pelos cabelos derrubando-a ao chão pondo-se em cima dela com as mãos à volta do pescoço dela apertando com força, via nos olhos da minha mãe a alma dela a extinguir-se. - Olhando para o chão contendo as lágrimas para não caírem do rosto abaixo. - Assim que acabou pediu para levarem o corpo dela como se fosse um animal, e depois olhou para mim a perguntar o que estava a olhar, que ainda existia poções a fazer para o dia seguinte. Eu fiz o que ele mandou por estar com medo, mas também queria ganhar tempo para pensar de uma maneira de fugir daquela casa para sempre. Então numa noite pos o meu plano em prática, adicionei um pouco de dose para adormecer na comida e fui para o meu quarto esperar que a poção fizesse efeito. Assim que vi que a costa estava livre sai do meu quarto com cautela até à saída da casa, apenas não contei que o meu meio irmão estivesse há conversa com dois amigos e não tivesse tomado a poção. A primeira coisa que fiz foi correr o mais rápido que conseguia deles. É claro que me apanharam e queriam…. - Envolvendo os ombros um pouco envergonhada. - mas quando Rhoda apareceu, ela salvou-me, na altura o medo não me quis dominar apenas a gratidão. Vivemos as duas na casa da minha mãe durante vários anos, até o meu padrasto descobrir o meu paradeiro e incendiar a casa onde atacou-nos e tivemos de fugir para a floresta como disse Rhoda. E penso que seja tudo. - Olhando para o Iorveth com pequeno sorriso.
- Não foi assim tão difícil, pois não? - Encolhendo os ombros.
- Não é uma questão de ser ou não ser difícil. - Levantando-se do banco. - Apenas existem muitas pessoas que não iriam compreender, que não é o caso aqui, claro.
Iorveth avançou até à mesa que estava ao pé da fogueira pegando nas armas de Rhoda, aproximando-se dela e estendeu a mão com as armas.
- Devolvo-te as tuas armas.
- Mas… - Pegando nelas, sem muito bem o que dizer surpreendida, com o gesto de Iorveth.
- Ganhaste um pouco da minha confiança. Por isso não a estragues.
- Obrigada. - Mostrando um ligeiro sorriso.
- Cedric - Voltando-se para a mesa de operações cheia de papéis de maneira a não encarar o olhar de Rhoda, o que captou atenção de Selina. - será o teu instrutor de treino para o combate de corpo a corpo.
- Ok.
- Se não tiverem mais nada acrescentar, estão dispensadas. - Continuando a olhar para a mesa.
As duas saíram da tenda e repararam que o dia já ia a meio. O grupo que de manhã estava a discutir com Iorveth táticas, voltaram a entrar na tenda para continuar a discussão. Selina reparou que Rhoda não tinha nenhum destino para ir por isso perguntou se queria conhecer o local de treinos onde iria brevemente treinar, e Rhoda acenou a cabeça afirmamente.
As duas foram até ao local, onde existiam várias locais para treinar várias artes como tiro ao alvo, esgrima entre outras. Lá viram um treino a decorrer, Selina ficou surpreendida com a técnica e rapidez dos movimentos de Cedric. Mas devido a uma pequena distração o aluno dele ficou ferido no nariz deitando um pouco de sangue. Selina foi ter com ele para examinar o ferimento.
- Não te preocupes, não é nada de grave. - Olhando para Cedric. - Apenas eleva a cabeça para o sangue parar. - Agora a olhando para o aluno.
- Basta uma falha e sais de cena para sempre. - Olhando para o aluno suspirando. - Ok. Por hoje é tudo podem ir.
O grupo de jovens elfos saiu do local pegando nas suas coisas, enquanto falavam uns com os outros sobre a aula de hoje.
- Obrigada pela tua atenção, Selina. Hum… - Desviando o olhar para Rhoda ficando um pouco mais sério. - Deves ser a minha nova aluna.
- Sim sou.
- Muito bem. Advirto que serás tratada por igual como os outros, na guerra todos somos homens.
- Nem esperava outra coisa. - Com sorriso nos lábios.
- Óptimo. Aqui utilizamos apenas calças, tronco nu e os punhos nada mais. - Mostrando-lhe o punho.
Selina sem dar conta aproximou-se de Cedric pegando na mão dele que apresentava alguns ferimentos abertos. Rhoda viu algum embaraço no rosto de Cedric que coçava ao de leve à cabeça. Selina quando se apercebeu quando estava bastante próximo ao rosto dele afastou-se largando a mão dele envergonhada e pediu desculpa ficando de costas para ele.
- É sempre bom estar atento aos pequenos problemas. - Com um pequeno sorriso. - Necessito de algum tratamento?
- Não, desde de que não abuses da mão. - Voltando-se para ele ainda um pouco vermelha com olhar baixo.
- Ok, irei ter mais atenção. Não te preocupes, Selina. - Ainda com sorriso. - Cá te espero Rhoda. - Olhando para ela.
As duas saíram da área de treinos deixando Cedric nas suas coisas que ainda tinha para fazer, caminhando até a tenda sobre o céu do anoitecer. Ao entrarem, Selina sentou-se na beira da cama enquanto Rhoda ficou a olhar para ela de braços cruzados à espera.
- O que foi?
- Tu sabes bem o que foi. - Notando um ligeiro embaraço em Selina. - Quando é que ias contar-me sobre o Cedric?
- Agora… - Encolhendo os ombros.
- Então força.
- Eu conheci-o na altura em que estiveste a dormir por duas semanas. Eu tratei várias vezes as feridas dele e fomos conhecendo-nos, apesar de ele ao início desconfiar de mim, mas agora ficamos amigos.
- Sim claro, amigos?! - Num tom a gozar. - Cada um de vocês a corar daquela maneira o patamar de amigos deixará de existir num futuro próximo.
- Não é nada disso, apenas vi a mão dele com ferimentos e pensei que precisava de algum medicamento. Sabes que feridas infectadas é o pior que pode acontecer se não tiveres cuidado. É normal que me preocupe.
- Se o dizes. - Deitando-se na cama apoiando a nuca com as mãos.
- Rhoda… - Ficando calada durante algum tempo. - Achas que Cedric e eu, podemos vir a ser algo mais do que amigos?
- A isso não te sei responder, mas não tenhas pressa, deixa as coisas fluírem ao seu ritmo e logo verás.
- Hum… E tu não tens ninguém que tenha capturado o teu olhar?
- O que queres dizer com isso? - Olhando para Selina um pouco confusa.
- Eu reparei como Iorveth desviou o olhar quando sorris-te a ele.
- E?
- E nada. Apenas pensei que...
- E porque achas que ele iria querer alguma coisa de mim, se não tenho nada para lhe oferecer? Para além que tem aqui muitas candidatas para ocupar esse lugar. - Olhando para o tecto. - E que eu saiba é de ti que estamos a falar e não de mim.
- Mas não tens saudades de sentir outra vez esse sentimento? E de construir novas memórias junto da pessoa que gostas?
- Nem por isso. - Ficando séria. - O que esse sentimento trás-te de bom também trás-te de mau. Porque haveria de eu querer voltar a sentir algo que deixei ficar no passado? Aliás não quero desperdiçar o meu tempo com isso, quero focar-me no treino que irei ter daqui algumas semanas e pagar a minha dívida ao Iorveth, nada mais. - Num tom mais sério.
- Compreendo, desculpa se disse alguma coisa que não devia. - Num tom baixo.
- Boa noite, Selina. - Voltando-se para o outro lado da cama ficando de costas para ela.
- Boa noite Rhoda.
Na calada da noite Rhoda teve um sonho que mostrava-lhe uma realidade que não era a sua, onde a outra ela, Joshua e o filho já crescido viviam felizes. Rhoda tocou ao que parecia ser uma parede transparente onde ela tomava o papel de espectadora, o que a deixou pensativa e triste ao mesmo tempo. A outra ela olhou para Rhoda, aproximando-se dela esboçando um pequeno sorriso onde apontava para um espelho ao lado dela.
Rhoda olhou para o espelho um pouco confusa. Onde antes estava aquela parede transparente agora estava apenas a escuridão. Aproximou-se receosa do que o espelho pudesse mostrar-lhe. Viu o reflexo dela mesma, mas com buraco escuro no peito no lugar do coração, ela sabia o porquê de ter aquele buraco. Foi uma escolha que ela fez, para não voltar a sentir esse sentimento.
Das vezes que olhava o seu reflexo, notou algo diferente, existia uma pequena fissura brilhante nesse buraco. Não sabia o porquê dessa fissura, mas sabia que fora algo ou alguém a fazê-lo de maneira a não deixá-la selar esse sentimento de vez.


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